Acervo Temático: Eleições presidenciais na Colômbia

O primeiro turno das eleições presidenciais da Colômbia consolidou um embate entre a esquerda e a direita, sem um candidato uribista. Álvaro Uribe foi presidente por dois mandatos na Colômbia, entre 2002 e 2010. Sua trajetória política, entretanto, não se limitou a ser o presidente eleito e em exercício, pois conseguiu emplacar, a cada pleito, um candidato de sua corrente.

O segundo turno é, portanto, histórico. Não apenas pela ausência de um candidato apoiado por Uribe, mas também pela presença da esquerda. Outros candidatos de esquerda que chegaram perto da presidência foram assassinados durante a campanha eleitoral. Além disso, caso o candidato de esquerda ganhe no segundo turno (as pesquisas de voto apontam para um empate técnico), será um fato inédito, visto que será a primeira vez que um esquerdista comandará o país.

Neste Acervo Temático, buscaremos fazer um panorama político da Colômbia, explicando os principais conflitos sociais do país. Em seguida, apresentaremos os candidatos que estão no segundo turno, Gustavo Petro e Rodolfo Hernández. E finalizaremos com uma breve análise sobre o pleito eleitoral do dia 19 de junho.

O “Urubismo” e a política colombiana

Há duas principais variáveis que devem ser compreendidas para que se tenha o mínimo conhecimento sobre a política da Colômbia: o “uribismo” e os movimentos guerrilheiros.

O “uribismo” surgiu na década de 1990, com grande enfoque na questão da segurança. Num contexto de guerra e com altos índices de violência, o “uribismo” surgiu como uma alternativa viável para os problemas sociais que afligiam – e, em menor quantidade, ainda afligem – o país. Nesse sentido, de acordo com Mauricio Jaramillo Jassir, professor de Relações Internacionais da Universidad Externado em Bogotá, o “uribismo” surge com uma proposta de recuperar a autoridade do Estado, sobretudo devido aos diversos golpes de guerrilheiros sofridos durante o governo de Andrés Patrana (1998 – 2002).

Assim, Álvaro Uribe foi eleito presidente em primeiro turno, um feito inédito para um candidato pouco conhecido, com um discurso duro em relação às FARC[1] (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Após eleito, Uribe fez um governo com mão de ferro contra as FARC, que resultou na redução das atividades dos guerrilheiros. Esta é uma doutrina que ficou conhecida por “Segurança Democrática”, em que a segurança seria basilar para o desenvolvimento do país. Além disso, seu governo foi marcado por um alinhamento incondicional aos Estados Unidos, transformando a Colômbia na maior aliada na América Latina dos norte-americanos.

Não podemos ignorar, entretanto, três fatores que cresceram durante o governo de Uribe e durante os governos apoiados pelo ex-presidente: os falsos positivos, o ataque às organizações de direitos humanos e o crescimento dos paramilitares. No primeiro caso, temos as mortes de civis orquestradas por forças de segurança do país e que eram dados como baixa de conflito. Isto é, matavam-se civis e divulgavam-se a identidade como se fossem guerrilheiros, o que não eram. A Jurisdição Especial para a Paz aponta que foram mais de 6.400 falsos positivos em 7 anos, entre 2002 e 2008.

No segundo caso, a representante da Organização das Nações Unidas (ONU) para defensores de direitos humanos, Margaret Sekaggya, acusou em 2009 o governo colombiano de perseguição aos defensores de direitos humanos. Além das perseguições, as acusações envolviam também abusos cometidos contra guerrilheiros e ex-guerrilheiros, bem como prisões arbitrárias de ativistas de direitos humanos.

Por fim, em 2014, Iván Cepeda[2] denunciou o ex-presidente por supostamente ter apoiado e financiado a criação do grupo paramilitar Bloque Metro. É importante ressaltar que, após o acordo de paz com as FARC, o grupo de guerrilheiros iniciou a entrega de armas, enquanto o terror ainda era propagado por grupos paramilitares, sobretudo no vácuo de poder deixado pelas FARC. A implementação do acordo de paz foi minada e interrompida pelo atual presidente Iván Duque.

Em agosto de 2020, a Corte Suprema de Justiça da Colômbia decretou a prisão domiciliar preventiva de Uribe, envolvido numa investigação de suborno, falsos depoimentos e com a participação de paramilitares. Foi apenas em 2022, entretanto, que Uribe renunciou ao cargo que ocupava no Senado do país.

O “uribismo” é, dessa maneira, uma das marcas da política colombiana contemporânea. Desde que deixou o poder, apenas um candidato apoiado por Uribe não conseguiu a eleição. As eleições de 2022 são, portanto, históricas, visto que o candidato apoiado por Uribe e pelo atual presidente Iván Duque, Frederico “Fico” Gutierrez, ficou em terceiro lugar no primeiro turno.

Em relação às guerrilhas, elas foram resultado da grande desigualdade existente no campo. Essa desigualdade ainda é latente, estima-se que hoje 80% das terras se concentram na mão de 1% da população. Formadas na década de 1960, durante o período de La Violencia (1948 – 1958), as FARC lutavam pela reforma agrária, um Estado socialista e democratização da posse de terras.

Durante seus primeiros anos, as FARC não conseguiram angariar apoio financeiro e de combatentes. Foi a partir da adoção de um Secretariado e da nova nomenclatura (FARC – EP[3]) que o grupo de guerrilheiros cresceu. De um lado, isso significou mais força. De outro, a sua imagem estava desgastada perante a opinião pública, sobretudo devido a morte de civis ocasionadas pelas atividades ilícitas – sequestros, extorsões, atentados, controle de território – que eram usadas como fonte de financiamento. Além disso, as FARC passaram a controlar produções de cocaína e maconha como fonte de financiamento.

Podemos entender, portanto, que a guerra de guerrilhas nasceu na Colômbia por conta da disputa por terra, num país com alta concentração de terras e que sofreu com a inserção da monocultura extensiva. Isto é, uma pequena parcela da população controlava as terras, a produção e recebia os rendimentos. Um dos pontos do acordo de paz de 2016 foi inclusive a necessidade de substituição de cultivo, visto que muitos produtores rurais se voltaram para a produção de coca e maconha uma vez que o cultivo de alimentos não trazia rendimentos. Assim, hoje há um programa de incentivo para que agricultores deixem de produzir drogas para produzir alimentos.

A crise política

A guinada política que a Colômbia sofreu pode ser explicada pela crise do “uribismo”, pela insatisfação popular e pela crise social recente que o país viveu. Esses três fatores não devem ser analisados de maneira isolada, mas sim em conjunto.

O “uribismo” entrou em decadência não apenas pela prisão de Álvaro Uribe, mas também devido ao acordo de paz firmado com as FARC em 2016 e pelas medidas econômicas e reformas neoliberais impostas pelo atual presidente, aliado de Uribe. Nesse sentido, analistas argumentam que o acordo de paz minou exatamente o discurso fundador do “uribismo”, pois este, como apontado anteriormente, se apoiava numa abordagem mais dura em relação às FARC.

Já no caso da insatisfação popular e da crise social decorrente dela, as mudanças promovidas por Iván Duque, o atual presidente, são centrais para sua compreensão. Em 2021, explodiu uma série de manifestações sociais contra a reforma tributária proposta por Duque e contra a reforma da saúde. Não é a primeira vez que esse tipo de manifestação acontece.

O ciclo de levantes populares se iniciou em 2011, com as manifestações universitárias, seguidas pela Greve Agrária de 2013, mais uma manifestação universitária em 2018 e manifestações gerais de 2019. Tudo isso aliado ao histórico movimento dos Mingas Indígenas que realizaram diversos protestos ao longo da década.

Para a completa compreensão das manifestações é necessário, contudo, entender a resposta do Estado. Similar ao que ocorreu no Brasil em 2013 e na Ucrânia em 2014, as manifestações se iniciaram com um propósito, mas se intensificaram devido às repressões violentas do Estado. A Anistia Internacional lançou um relatório acerca das manifestações, acusando o governo colombiano de violar sistematicamente os direitos humanos e o direito internacional. Ao longo da jornada de protestos, cerca de 28 pessoas morreram devido à ação das forças de segurança. Estima-se, ainda, 90 casos de lesões oculares, 28 casos de violência sexual e cerca de 2.000 prisões arbitrárias, além de 300 desaparecidos.

Os números são alarmantes e denotam uma sociedade violenta, com uma ação policial altamente repressiva que subjuga os direitos humanos de forma sistemática.

As eleições de 2022

O embate pela presidência é por si só um evento que pode estremecer o cenário político nacional, bem como ter impactos regionais.

No caso colombiano, os dois candidatos do segundo turno, o esquerdista e ex-guerrilheiro Gustavo Petro e o “Trump colombiano” Rodolfo Hernández, possuem em sua chapa, na posição de vice, mulheres negras. Assim, pela primeira vez na história, a Colômbia terá uma mulher negra como vice-presidente. O fato inédito está no meio de mudanças que ocorreram após o acordo de paz firmado com as FARC.

O acordo beneficiou moradores de áreas de conflitos. Estima-se que a Colômbia tenha 7 milhões de deslocados internos, os chamados “desplazados”. Destes, 25% são negros, embora apenas 6,8% da população se declare afrodescendente. Com o acordo de paz, políticas específicas de apoio a essa população foram criadas. Além disso, o ciclo de protestos recentes acalorou o debate nacional em torno do racismo e já nas eleições nacionais de 2018 houve uma mudança no padrão de eleitos, com uma maior participação de indígenas e negros, embora ainda singela.

O embate está colocado e antagoniza dois projetos de país totalmente diversos. O ex-guerrilheiro do M-19, economista e Senador, Gustavo Petro, aposta em um programa de governo apoiado na justiça social e na reforma agrária, democratizando o acesso a terras. Além dessas bandeiras, Petro defende uma reforma tributária com a cobrança de impostos sobre grandes fortunas, inclusão social, uma economia produtiva e com estabilidade econômica. Defende, ainda, o fim do serviço militar obrigatório e a ampliação da área dos direitos humanos nas Forças Armadas e de segurança do país.

Pelas suas bandeiras, Petro sofre rejeição do empresariado, mas grande parte de suas demandas impulsionaram as manifestações recentes do país. Além disso, Petro pretende revisar as negociações dos tratados de livre comércio em vigor, inclusive aqueles envolvendo os Estados Unidos, ponto alarmante para sua relação com o empresariado.

Já Hernández, de 77 anos, é conhecido por alguns setores como o “Trump colombiano”. Com tendências populistas, é um outsider na política colombiana, embora tenha sido  prefeito da cidade de Bucaramanga. Sua principal bandeira é o combate à corrupção, o que é conflitivo, visto que o próprio candidato tem problemas com a Justiça em razão de denúncias de irregularidades, que ocorreram durante seu período enquanto prefeito. Hernández defende o uso medicinal da maconha, a criação de renda mínima para os mais pobres e ampliação da aposentadoria para aqueles que não contribuíram.

Analistas afirmam, entretanto, que seu plano de governo é “vazio”, com poucas diretrizes a serem seguidas e sem explicações de como seriam implementadas suas propostas. Ainda, devido ao apoio de Álvaro Uribe, alguns especialistas alertam que Hernández pode perder o eleitorado que votou nele exatamente por se distanciar dos políticos tradicionais.

Petro ficou em primeiro lugar na primeira volta, com 40,32% (8,5 milhões) dos votos. Hernández ficou em segundo lugar, com 28,15% (5,9 milhões) dos votos. Apesar da grande diferença, o cenário para o segundo turno é incerto, isso porque, se houver migração de voto de Frederico “Fico” Gutierrez para Hernández, o Trump colombiano leva a corrida presidencial.

Anos de conflito armado, a crescente pobreza e a desigualdade social são responsáveis pela polarização que o país vive. Além disso, ambos os candidatos não fazem parte da política tradicional, mostrando que há um cansaço da população frente ao establishment político.

As pesquisas de intenção de voto não estão consolidadas. A Massive Caller e GAD3 colocam Hernández com uma leve vantagem sobre Petro. Já o Centro Nacional de Consultoria, Guarumo e YanHass colocam Petro como o provável vencedor da disputa. Até o fechamento das urnas, as eleições não estarão definidas. Vence aquele que conseguir cativar o eleitor de centro e aqueles que não votaram ou se abstiveram no primeiro turno.

Ainda mais incerto são os impactos que o vazamento de áudios de integrantes da campanha de Petro terão para a corrida eleitoral. A série de áudios vazados indica que a equipe buscou estratégias de descrédito de outros candidatos. O vazamento ocorreu no mesmo dia em que Petro apareceu como líder nas pesquisas de intenção de voto, embora elas apontem para um empate técnico. Duas semanas antes do pleito, Hernández cancelou sua agenda de campanha devido ao “risco de vida”. Não está claro se a ausência de aparições pública pode impactar a reta final de sua campanha.

Há duas certezas: o novo presidente deverá enfrentar o fantasma que ronda a América Latina – a alta rejeição e dificuldade de implementação de reformas – e o acordo de paz de 2016 está em jogo, podendo ser minado ou fortalecido. Para a América Latina, poderemos ter este ano os 7 países mais populosos – Brasil, Argentina, Colômbia, México, Peru, Venezuela e Chile – liderados por figuras de esquerda. Caso a direita vença no Brasil e na Colômbia, não está claro como serão as relações entre os países da região e se haverá um isolamento destes países latino-americanos.

ELN anuncia cessar-fogo para eleições presidenciais da Colômbia/Folha (16.05)

“O ELN (Exército de Libertação Nacional), considerada a última guerrilha da Colômbia, anunciou nesta segunda (16) um cessar-fogo unilateral de dez dias para a eleição presidencial, cujo primeiro turno ocorre no dia 29. O grupo também reiterou a disposição de realizar negociações de paz com o futuro governo.”

Eleições na Colômbia: quem são ex-guerrilheiro e ‘Trump colombiano’ que disputam 2º turno/BBC (30.05)

“Os colombianos vão decidir quem será o próximo presidente do país no segundo turno das eleições, em 19 de junho.”

Segundo turno na Colômbia opõe duas vices negras em meio a debate sobre racismo/Folha (31.05)

“O embate pela Presidência da Colômbia, que terá o segundo turno realizado no próximo dia 19, se dará entre dois homens brancos. A disputa entre Gustavo Petro e Rodolfo Hernández, que opõe um esquerdista e um populista de plataforma incerta, deixou de fora partidos e atores tradicionais da política local, além de trazer outra novidade: ambos os candidatos têm como vice uma mulher negra.”

Perplexidade na Colômbia/Folha (05.06)

“Na Colômbia, um outsider será provavelmente eleito presidente. E isso em um país marcado por um partidarismo sem paralelo na região. Mas um olhar atento revela que esse resultado não é paradoxal.”

Justiça da Colômbia determina prisão do presidente do país/Poder360 (05.06)

“O Tribunal de Justiça de Ibagué, na Colômbia, determinou a prisão do presidente do país, Iván Duque. O líder colombiano foi condenado a 5 dias de prisão domiciliar no sábado (4.jun.2022). Eis a íntegra da sentença (663KB, em espanhol).”

Colômbia: Pesquisas indicam vantagem de Hernández sobre Petro no 2º turno/CNN (07.06)

“A contagem regressiva para o segundo turno das eleições presidenciais na Colômbia continua e a quase duas semanas da data final, Gustavo Petro e Rodolfo Hernández, tiraram vantagem um do outro, por poucos, pouquíssimos pontos percentuais na intenção de voto.”

Petro aposta em vagas estatais no campo para aplacar desemprego na Colômbia/Folha (07.06)

“A menos de duas semanas do segundo turno do pleito presidencial na Colômbia, o desemprego está entre as principais preocupações dos eleitores, de acordo com levantamento do Instituto Invamer.”

Candidato populista à Presidência da Colômbia cancela atividades públicas por ‘risco’ de vida/O Globo (09.06)

“O populista Rodolfo Hernández, candidato à Presidência da Colômbia, cancelou suas atividades públicas dez dias antes do segundo turno em que enfrenta o esquerdista Gustavo Petro porque sua “vida está em risco”, anunciou ele nesta quinta-feira no Twitter.”

Vazamento de gravações da equipe de Gustavo Petro bagunça campanha na Colômbia/O Globo (10.06)

“O vazamento de uma série de gravações em que diferentes integrantes da campanha do candidato esquerdista Gustavo Petro discutem estratégias para atacar e desacreditar seus rivais políticos, reveladas poucos dias antes do segundo turno das eleições na Colômbia, promete obscurecer ainda mais a reta final da campanha, marcada pela polarização entre duas opções antagônicas.”


[1] As FARC foram uma guerrilha revolucionária, que lutava pela implantação do socialismo na Colômbia. As FARC estiveram envolvidas numa guerra que durou mais de 50 anos e que chegou ao fim com a assinatura do tratado de paz em 2016, um grande feito do presidente Juan Manoel Santos.

[2] Iván Cepeda é senador. Inicialmente, Uribe o acusou de suposta manipulação de testemunha. O caso foi arquivado por falta de evidência e, ao mesmo tempo, a Corte Suprema de Justiça da Colômbia abriu uma investigação contra Uribe acusando-o de subornar testemunhas.

[3] Forças Armadas Revolucionárias Colombianas — Exército Popular