Você está com um documento vencido e não sabe qual órgão público procurar para renová-lo, nem os custos e prazos de renovação. Se você souber formular essa pergunta para uma Inteligência Artificial (IA), em poucos segundos você saberá onde resolver o problema, o endereço para onde deve ir, o horário de funcionamento do estabelecimento, qual ônibus tomar, quanto custará e se a fila costuma ser demorada.
Agora imagine que você quer fazer uma viagem longa, mas não sabe bem quais lugares visitar, como ir de uma cidade a outra, se há trens ou voos. Você formula essa questão para uma IA, indicando as regiões que quer ver e, pronto: em poucos segundos ela te oferece um roteiro informando qual ônibus, trem ou voo pegar, quais escalas necessárias, principais características e atrações das cidades, melhor época do ano para ir, e o que mais quiser saber.
Esses são exemplos simples, até banais, de como essas ferramentas têm feito parte da nossa vida cotidiana e transformado a forma pela qual adquirimos informações que podem balizar as decisões que tomamos. Os exemplos são incontáveis: Uma dor ou mancha na pele, qual remédio tomar, qual remédio não tomar quando se é alérgico a algo, como utilizar um programa computacional no local de trabalho, qual alimento faz bem para o que, e, não menos importante, todo o conteúdo escolar, do ensino fundamental ao ensino superior e especializado, ao alcance de um clique. Os exemplos podem parecer banais, mas os efeitos da IA na organização da vida contemporânea estão longe de sê-lo.
A importância da IA na organização das sociedades contemporâneas é inegável e vai muito além das facilitações que pode produzir na esfera privada. O uso das IA vai gerar impactos não apenas do ponto de vista cognitivo e psicológico, mudando a forma como as pessoas obtém e processam informações, mas também do ponto de vista estrutural, impactando cadeias produtivas, custos de produção, mercado de trabalho e direitos de propriedade.
Nas próximas linhas vamos discutir alguns desses possíveis impactos e a importância de construir um marco regulatório.
Inteligência Artificial (IA) e seus usos:
Os avanços tecnológicos nas últimas décadas têm possibilitado transformações profundas na organização da sociedade, nas relações de trabalho e na produção do conhecimento. No contexto brasileiro, a crescente inserção de tecnologias digitais no cotidiano das pessoas revela um fenômeno de ampla complexidade, cujas implicações ultrapassam o domínio técnico e adentram as esferas ética, política e da cultura. Entre as inovações mais significativas destaca-se a Inteligência Artificial, ramo das ciências da computação que se propõe a desenvolver sistemas capazes de simular a cognição e a tomada de decisões humanas. Trata-se de uma tecnologia disruptiva que, ao mesmo tempo em que promete ganhos em eficiência e produtividade, suscita importantes debates acerca de seus impactos sociais e humanos.
A Inteligência Artificial está baseada na construção de mecanismos – tanto físicos quanto digitais – capazes de processar informações de maneira semelhante ao cérebro humano, utilizando algoritmos, redes neurais e bases de dados massivas. Seu funcionamento baseia-se em modelos matemáticos que buscam aprender padrões e tomar decisões autônomas a partir de variáveis complexas. Nesse sentido, a IA não se limita a uma simples automação de tarefas, mas constitui um salto qualitativo na capacidade das máquinas de interpretar, prever e agir em contextos variados.
É interessante notar que no Brasil, a implementação crescente de ferramentas baseadas em uso de IA, como o ChatGPT (Generative Pre-trained Transformer), insere o país em um cenário global de transformação digital. Estes sistemas são alimentados por enormes volumes de dados que estão disponíveis na internet e treinados para gerar textos, responder perguntas, auxiliar em diagnósticos médicos, automatizar processos e otimizar a comunicação em diferentes setores. O leque de potencialidades dessa tecnologia é amplo e usado de diferentes maneiras. Suas contribuições podem ser benéficas, mas também implica consequências.
Como contribuições dessa inteligência artificial, podemos citar a automatização de conteúdos, que proporciona maior agilidade na produção de análises técnicas; como resolução de problemas complexos, pois viabilizada a aplicação de modelos preditivos em áreas como saúde, transporte e economia; na otimização dos processos comunicativos, nas empresas, dentre outros.
Entretanto, a integração da Inteligência Artificial em larga escala na sociedade não está isenta de desafios e riscos. Do ponto de vista ético, surge a necessidade de estabelecer diretrizes normativas que assegurem a proteção dos dados pessoais e da privacidade dos indivíduos, especialmente em um contexto em que algoritmos têm poder decisório sobre questões sensíveis. Como alerta David Lyon (2011), vivemos em uma “sociedade da vigilância”, na qual os dados se tornaram matéria-prima essencial para o controle social e comercial. Por isso uma eficiência regulamentação é fundamental.
Regulamentação:
A União Europeia chegou a um acordo no final de 2023 com o fim de estabelecer um conjunto de normas que visa regulamentar o uso de sistemas de Inteligência Artificial. É uma iniciativa pioneira no mundo, considerada a mais completa até o atual momento. Nesse sentido, os 27 países membros da organização internacional de caráter supranacional firmaram um pacto para viabilizar a aprovação da denominada Lei de Inteligência Artificial. A normativa tem o escopo de permitir a supervisão legal das tecnologias de IA, inclusive em temas polêmicos, que envolvem a regulamentação do uso do reconhecimento facial e de dados biométricos, assim como ferramentas de IA generativa, como, por exemplo, o ChatGPT. Desta maneira, sistemas com base na IA deverão ser submetidos a obrigações legais antes que possam entrar no mercado. Para tanto, deverão apresentar documentação técnica e cumprir com a Lei de Direitos Autorais da União Europeia. Já modelos considerados de “alto impacto” e de “riscos sistêmicos” terão de conduzir avaliações e análises de modelos com o fim de mitigar riscos. Testes deverão ser feitos para detectar adversidades e, havendo, incidentes deverão ser comunicados à Comissão Europeia. No mesmo diapasão, as empresas de tecnologia deverão fornecer garantias em relação à segurança cibernética e apresentar relatórios sobre eficiência energética.
Ainda de acordo com a regulamentação aprovada no âmbito da União Europeia, os governos poderão utilizar a vigilância biométrica em espaços públicos apenas em caso de específicos crimes com vítimas, para perseguir suspeitos de crimes graves e para prevenir ameaças reais, já presentes ou previsíveis, tais como ataques terroristas. Esses são, aliás, temas fundamentais para o desenvolvimento do ambiente democrático. Assim como as Big Techs precisam ter limites e transparência, os Estados precisam respeitar os limites das liberdades fundamentais e da vida privada de cada ser humano.
Um tema fundamental para a educação e a proteção da criança é o que o acordo denomina de manipulação cognitivo-comportamental. Nesse sentido, o acordo feito no âmbito da União Europeia tem o objetivo de rastrear e proibir ferramentas que incentivam determinados comportamentos estimulados e impulsionados por postagens. Na mesma esteira, o regramento proíbe também o rastreamento não especificado de imagens faciais, assim como o que denomina de sistema de crédito social; isto é, a categorização biométrica para discriminar pessoas em razão de orientações religiosas, políticas, sexuais, raciais ou filosóficas. Isso é fundamental para estimular que os formuladores de modelos utilizados para desenvolver os algoritmos concedam transparência e informem os dados utilizados (outputs e inputs).
Para que toda essa normativa tenha efetividade, há um sistema de recebimento de queixas para que as partes responsáveis possam apresentar esclarecimentos. No mesmo sentido, há a previsão de sancionamento pecuniário, com multas que podem chegar a 7,5 milhões de euros ou ao equivalente a 1,5% do faturamento das empresas, no limite de até 35 milhões de euros ou 7% do faturamento global.
Apesar do avanço inegável em se aprovar uma normativa como essa, inúmeras críticas foram feitas por diversos setores, desde os chamados ativistas digitais, que buscam identificar os perigos que a IA oferece para o mundo, até membros das empresas de tecnologia, imediatamente interessadas na legislação europeia. Por exemplo, uma das críticas levantadas reside num tema sensível para a proteção internacional dos Direitos Humanos, pois alegam que a legislação apresenta uma falta de proteção para os sistemas de IA utilizados em controles de fronteira. Também há a preocupação em relação ao quanto se permitiu utilizar-se o reconhecimento facial em sistemas de segurança[1].
Impactos da IA sobre o mercado de trabalho:
A ascensão da inteligência artificial representa uma das transformações mais profundas do mercado de trabalho contemporâneo. No Brasil, esse movimento tem se intensificado desde o período pós-pandemia, acelerando a adoção de tecnologias digitais e reorganizando as dinâmicas de oferta e demanda por trabalho. Se por um lado a IA permite ganhos de produtividade e a criação de novas ocupações, por outro levanta preocupações sobre desemprego tecnológico, desigualdades sociais e a necessidade de requalificação profissional.
A substituição de empregos tradicionais é um dos efeitos mais discutidos da IA. Tarefas repetitivas ou operacionais já estão sendo automatizadas em setores como finanças, indústria e até na saúde. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), cerca de 56,5% dos empregos formais no Brasil em 2017 estavam concentrados em ocupações cujas tarefas têm alto ou médio-alto potencial de automação. Isso indica que, um cenário em que embora o risco de substituição total de profissões seja limitado, há uma probabilidade significativa de que diversas tarefas específicas sejam automatizadas.
O estudo ressalta que o impacto das novas tecnologias será mais de reconfiguração do trabalho do que de sua eliminação. Um exemplo concreto é o uso crescente de sistemas de telediagnóstico na saúde, que ampliam a capacidade de atendimento sem prescindir da atuação médica humana. Os autores também observam que as ocupações mais expostas tendem a se concentrar em regiões fora dos grandes centros urbanos e em setores como agropecuária, indústria de transformação e logística.
Nesse sentido, com base nas informações da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), fornecidas pelo Ministério do Trabalho, um levantamento realizado em 2024 pela FecomercioSP identificou 30 ocupações que apresentaram crescimento no mercado de trabalho. As funções mais destacadas estão relacionadas às áreas de computação, Tecnologia da Informação (TI) e informática. Entre elas, a que registrou o maior avanço foi a de engenheiro de sistemas operacionais em computação, com um impressionante aumento de 741,2% no número de vínculos empregatícios. Outras ocupações que também tiveram expansão significativa incluem o cargo de tecnólogo em gestão de TI, com crescimento de 450,7%, e o de pesquisador em ciências da computação e informática, que apresentou alta de 579,3%.
Um estudo conjunto da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Instituto Nacional de Pesquisa da Polônia (NASK), publicado em maio de 2025, revela que cerca de um em cada quatro empregos em nível global está potencialmente exposto à inteligência artificial generativa (GenAI). Apesar disso, o resultado mais provável dessa exposição não é a substituição completa dos postos de trabalho, mas sim a sua transformação, com tarefas sendo reconfiguradas, e não os empregos eliminados.
No entanto, os impactos não são homogêneos. Setores que empregam mão de obra menos qualificada, como a indústria de base e serviços administrativos, já observam mudanças estruturais. As ocupações administrativas e de escritório são as mais vulneráveis, mas profissionais em setores como mídia, software e finanças também enfrentam risco crescente, especialmente em países de alta renda (34 % dos empregos expostos).
Além disso, as mulheres estão desproporcionalmente afetadas: elas representam 9,6 % dos empregos de alto risco em países ricos, enquanto os homens representam 3,5 %. Ao mesmo tempo, as regiões brasileiras mais desenvolvidas, como o Sudeste, concentram os investimentos em IA, o que agrava as desigualdades regionais.
Isso exige políticas públicas que garantam inclusão digital e redistribuição dos benefícios tecnológicos. Desta forma, a requalificação profissional emerge como estratégia essencial, uma vez que a rápida evolução da IA demanda constante atualização das competências dos trabalhadores. Cursos técnicos, formação continuada e acesso à educação digital tornam-se políticas prioritárias.
Quando olhamos para os setores econômicos, os mais impactados pela IA no Brasil são a saúde, as finanças e a indústria. Na saúde, a IA tem sido usada para melhorar diagnósticos, com mais de 1,5 milhão de atendimentos de telediagnóstico realizados em 2023. No setor financeiro, a automação de transações e a adoção de chatbots já reduziram a necessidade de atendentes e caixas bancários. Na indústria, a chamada Indústria 4.0 introduz robôs e sensores inteligentes, que aumentam a eficiência, mas também exigem trabalhadores altamente qualificados.
Portanto, a IA não é inimiga do emprego, mas sim uma força que exige adaptação. O Brasil precisa investir em educação, infraestrutura digital e regulamentação ética da tecnologia para que os ganhos sejam amplos e inclusivos. Com políticas públicas robustas e engajamento das empresas, é possível construir uma transição digital que respeite a dignidade do trabalho humano e promova um crescimento sustentável e equitativo.
IA no ambiente escolar e da pesquisa
Talvez um dos universos onde o uso de IA tenha vindo par ficar com mais força e onde os impactos sejam menos conhecidos até o momento é o universo do ensino e da pesquisa. Hoje em dia qualquer aluno do ensino médio que possua um celular e acesso à internet pode acessar os conteúdos ensinados na escola pelo ChatGPT. Os efeitos, a princípio, podem ser paradoxais. Por um lado, tem-se o acesso imediato a um conhecimento acumulado mais amplo do que aquele que se tinha com as grandes enciclopédias. Por outro lado, acessa-se esse conhecimento de maneira imediata, sem necessidade de leituras prévias, sem esforço, e, sobretudo, com a iminente possibilidade de plágio. Este é um debate que os professores e educadores não poderão fugir.
O uso constante da IA tem sido feito por pesquisadores de ponta, tanto na área de humanas como de exatas. Mapeamento de debates acadêmicos, revisão de teses gerais, balanços bibliográficos e até mesmo formulação de hipóteses e análises de resultados tem sido feitas com o uso de ferramentas como ChatGPT, Claude, entre outros. O uso inteligente e honesto dessas ferramentas pode sem dúvida aprimorar pesquisas, reduzindo o tempo necessário para produzir relatórios e aumentando a produtividade. O que não sabemos ainda é quais podem ser os resultados caso os pesquisadores ultrapassem a barreira sutil entre o uso da ferramenta como facilitador dos procedimentos da pesquisa e o uso da ferramenta como a própria pesquisa, o que pode reduzir a qualidade dos resultados e claramente gerar problemas éticos sobre a real autoria da pesquisa.
Em outro nível, alunos dos cursos de graduação espalhados pelo Brasil têm feito cada vez mais uso das IA para realizar pesquisas e produzir “trabalho” exigidos em disciplinas. Ainda não dispomos de um sólido levantamento sobre os possíveis impactos na qualidade da formação de profissionais, mas os relatos de professores que ministram disciplinas para grandes turmas têm sido preocupantes. O hábito da leitura tem sido cada vez mais reduzido entre alunos que cursam os cursos superiores. Esse é um debate de extrema importância e que está apenas começando.
IA veio para ficar. Precisamos estar preparados:
A crescente adoção da inteligência artificial levanta importantes questionamentos éticos e sociais: A possível perda da autonomia humana, à medida que decisões relevantes passam a ser delegadas a sistemas automatizados. E também, há a possibilidade de interferência das capacidades criativas e reflexivas das pessoas, em função da dependência crescente de soluções que esses sistemas inteligentes oferecem. Outro aspecto preocupante é a propagação de conteúdos desinformativos, considerando que a IA também pode ser empregada na produção e disseminação de fake news com elevado grau de verossimilhança.
Essas questões demonstram a urgência de um marco regulatório que não apenas regularize o uso da Inteligência Artificial, mas que também promova um debate público qualificado sobre seus limites e possibilidades. Autores como Zuboff (2020) chamam atenção para os riscos do “capitalismo de vigilância”, no qual dados pessoais são coletados e explorados comercialmente sem o devido consentimento dos usuários. Já Laymert Garcia dos Santos (2003) destaca a necessidade de pensar criticamente a tecnociência e seus impactos nos países periféricos, como o Brasil, onde a exclusão digital pode ser intensificada pela adoção desigual dessas tecnologias.
Por fim, a Inteligência Artificial constitui um dos pilares centrais da chamada Quarta Revolução Industrial e representa um divisor de águas na forma como sociedades organizam suas estruturas produtivas, comunicacionais e cognitivas. No Brasil, os impactos dessa tecnologia são ambivalentes: ao mesmo tempo em que oferece soluções inovadoras e ganhos de eficiência, também impõe riscos éticos, sociais e políticos que não podem ser negligenciados. Assim, torna-se imprescindível fomentar políticas públicas que orientem o desenvolvimento responsável da IA, garantindo que sua aplicação se dê em consonância com os direitos fundamentais e com os valores democráticos onde construção de um futuro tecnológico inclusivo e ético dependerá, sobretudo, da capacidade da sociedade brasileira de refletir criticamente sobre os rumos de sua transformação digital.
[1] Disponível em https://www.dw.com/pt-br/ue-sela-acordo-hist%C3%B3rico-para-regular-intelig%C3%AAncia-artificial/a-67677458, último acesso em 04 de abril de 2024.








